A reforma tributária deixou de ser assunto de futuro. Desde agosto de 2026, os campos de IBS e CBS já são obrigatórios na maioria das notas fiscais — e, junto com eles, chegou um efeito colateral que pouca gente no Simples Nacional está calculando: o quanto de crédito tributário sua empresa transfere (ou deixa de transferir) para quem compra de você.
Esse detalhe técnico pode parecer distante do dia a dia, mas ele mexe diretamente com preço, margem e — no limite — com a decisão de um cliente continuar comprando da sua PME ou trocar por um concorrente do regime regular. Vamos destrinchar por quê.
O que mudou na nota fiscal em 2026
O ano de 2026 é a fase de teste da reforma. A partir de 2026, empresas do regime regular são obrigadas a destacar e recolher a chamada "alíquota de teste" do IVA Dual, com alíquota somada de 1% sobre as operações, dividida em 0,9% para a CBS (federal) e 0,1% para o IBS (estadual/municipal).
O ponto crítico é o prazo. A partir de 03 de agosto de 2026, não é permitida a emissão de documentos fiscais eletrônicos sem o preenchimento dos campos relativos ao IBS e à CBS, para as empresas do regime regular, e todos os documentos devem conter a alíquota teste de 1%.
Boa notícia para o caixa neste primeiro ano: o impacto é mais operacional do que financeiro. Neste primeiro ano, o pagamento desses 1% não aumenta a carga tributária final, pois o valor pago a título de IBS e CBS pode ser compensado dos recolhimentos de PIS e COFINS devidos pela empresa — ou seja, o impacto é muito mais operacional (adaptação de sistemas e emissão de notas) do que financeiro.
Para quem está no Simples, o calendário é diferente. O Simples Nacional só passará a preencher obrigatoriamente as informações de IBS e CBS no layout da nota fiscal a partir de 1º de janeiro de 2027.
O problema silencioso do crédito para quem está no Simples
Aqui mora o risco que quase ninguém está monitorando. No modelo de IVA, seu cliente empresa aproveita como crédito o imposto destacado na nota que ele recebe. E é justamente nesse ponto que a PME do Simples fica em desvantagem.
O Simples continua existindo e recolhendo pelo DAS, mas há uma escolha: a empresa pode optar por recolher CBS e IBS "por fora" do regime, no sistema normal. Sem essa opção, o cliente empresa até recebe crédito, mas só do valor pago dentro do DAS, que é baixo.
Traduzindo para o dia a dia:
- Se você vende para consumidor final, isso pouco importa — ele não usa crédito.
- Se você vende B2B para empresas do regime regular, o crédito que você transfere pode ser bem menor do que o que um concorrente fora do Simples ofereceria.
- Um crédito menor significa que, na prática, seu produto ou serviço fica mais caro para o comprador, mesmo que seu preço de tabela seja igual ao da concorrência.
Ou seja: a competitividade da sua PME em vendas para outras empresas passou a depender de uma variável tributária que antes era irrelevante. E a decisão de optar (ou não) pela apuração "por fora" precisa ser feita com número na mão, não no achismo.
Como transformar isso em decisão consciente
A reforma não é só uma questão de conformidade fiscal — é um tema de margem e posicionamento comercial. Alguns passos práticos para os próximos meses:
- Mapeie sua carteira por tipo de cliente. Separe faturamento para consumidor final, para empresas do Simples e para empresas do regime regular. Só assim você sabe qual fatia é sensível ao crédito tributário.
- Simule o cenário do crédito "por fora". Para clientes B2B relevantes, calcule quanto crédito você geraria dentro do DAS versus recolhendo CBS/IBS pelo sistema normal, e o efeito disso no preço final percebido pelo comprador.
- Converse com seus principais clientes B2B agora. Muitos deles já estão adaptando ERP e podem começar a priorizar fornecedores que gerem mais crédito. Antecipar essa conversa evita perder contrato de surpresa.
- Reveja a precificação por contrato. Um mesmo cliente pode ter margem real diferente depois de considerar o crédito transferido. Analisar margem contrato a contrato deixa de ser luxo e vira necessidade.
- Prepare o sistema de emissão. Mesmo que a obrigatoriedade plena para o Simples seja em 2027, quanto antes seus dados fiscais (NBS, códigos de tributação) estiverem organizados, menor o risco de erro.
O pano de fundo é o mesmo há décadas: a possibilidade de errar na interpretação de lucros e a real disponibilidade de caixa pode levar proprietários a decisões equivocadas, prejudicando a continuidade do negócio. A reforma só acrescenta mais uma camada a essa análise.
O que fazer nos próximos meses
A transição da reforma vai até 2033, mas as decisões que protegem sua margem precisam ser tomadas agora, no período de testes, quando o custo de errar ainda é baixo. A substituição completa de PIS, Cofins, ICMS e ISS pelos novos impostos vai até 2033. Isso dá tempo de aprender — mas não de ignorar.
A recomendação é tratar a reforma como um projeto de controladoria, não apenas de contabilidade. Isso significa cruzar dados de faturamento, tipo de cliente, margem por contrato e cenários de crédito tributário em um só lugar. Ferramentas que integram DRE, análise de margem por contrato e simulação da reforma tributária — como o Motor Financeiro — ajudam a enxergar esses efeitos antes que eles apareçam na forma de um cliente perdido.
No fim, a pergunta que todo dono de PME deveria fazer é simples: quando meu cliente B2B comparar meu preço com o crédito que eu gero, eu ainda serei a opção mais barata para ele? Quem responder isso com dados sai na frente. Quem responder no susto, corre atrás.